Tragédias na
hora do almoço
Por
Laurindo Lalo Leal Filho
Muita
gente ainda almoça em casa no Brasil, embora o hábito venha diminuindo nos
últimos anos por conta das dificuldades cada vez maiores de deslocamento em
quase todas as cidades. Mas além dos que trabalham fora e ainda têm essa
possibilidade, há crianças, jovens, idosos, donas de casa e pessoas com outros
tipos de afazeres que seguem almoçando em casa todos os dias. Sem dúvida, um
privilégio. Salvo por um pequeno senão: a TV ligada nesse horário.
Na tela,
muitas cenas são incompatíveis com uma refeição saudável. Por exemplo:
justiceiros arrastando um homem para a morte, com o som dos seus apelos
desesperados pela vida, das ordens de atirar (e em que parte específica do
corpo), dos tiros, das recomendações para crianças saírem de perto e finalmente
as chamas consumindo a vítima. Pode haver algo mais escabroso para ser mostrado
em qualquer horário? Essas cenas foram exibidas perto do meio-dia no programa Cardinot
Aqui na Clube, da TV Clube, afiliada da Bandeirantes em Recife. É
apresentado por Josley Cardinot que tem contra ele uma ação na justiça por
mostrar, anteriormente, conteúdos semelhantes no programa Bronca Pesada,
então transmitido pelo canal local do SBT.
E não
adianta mudar de estação. As diferenças entre os programas são muito pequenas.
Um copia o outro. No caso de Pernambuco, na hora do almoço a TV Jornal (SBT)
apresenta agora o Plantão 190 e a TV Tribuna (Record) o Ronda
Geral, também policialescos. Como se vê, a frase “o melhor controle é o
controle remoto” é um simples jogo de palavras para eximir os concessionários
de canais de TV de suas responsabilidades éticas e sociais. Dá-se a eles uma
liberdade absoluta, inexistente em qualquer outra atividade profissional.
A
violência e a expansão da incivilidade
Não se
trata de censurar a informação sobre um grave fato policial, mas de ressaltar a
possibilidade de uma notícia como essa ser transmitida de forma menos
agressiva. O telespectador tem o direito de ser informado sobre a execução
cometida por justiceiros sem, no entanto, se submeter à violência das cenas
exibidas. Ainda mais diante da constatação de que quando se liga a TV, nunca se
sabe o que vem pela frente. E, para muitos, o susto é enorme. A TV não é como o
jornal, cuja noção do que publica se sabe antes de comprá-lo. A TV entra em
nossas casas sem pedir licença, basta apertar o botão. Daí, a necessidade de um
controle público mais rigoroso.
As
respostas da sociedade a esse tipo de programa ainda são tímidas. No Recife,
uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público, a pedido de várias
organizações de defesa dos direitos humanos contra o programaBronca Pesada,
arrasta-se há anos sem solução. Agora, diante das imagens da execução de um
homem, mostradas pela TV Clube, novas ações devem ser propostas. O Centro de
Cultura Luiz Freire gravou as cenas e as exibiu para os deputados que integram
a Frente Parlamentar da Comunicação do Estado, tentando sensibilizá-los para o
problema.
Sem uma
lei moderna que coíba esse tipo de abuso e de um órgão regulador com poderes
para aplicá-la, como ocorre na Europa, restam poucas alternativas de resposta
dos cidadãos às emissoras. Até hoje apenas uma atingiu os efeitos desejados. A
decisão judicial que tirou do ar, por 30 dias, o programa João Kleber,
apresentado pela Rede TV. Em lugar das humilhações impostas principalmente a
homossexuais, a emissora foi obrigada a transmitir no mesmo horário produções
realizadas por entidades defensoras dos direitos humanos. A audiência, é bom
frisar, não caiu, desmentido a afirmação repetida à exaustão de que o público
gosta de baixarias.
Mas esse é
um exemplo único. Muito pouco diante da quantidade de programas que,
diariamente, em todo o país seguem contribuindo para a banalização da violência
e a expansão da incivilidade. [Artigo publicado originalmente naRevista do
Brasil, edição de outubro de 2011]
***
Laurindo Lalo Leal Filho
é
sociólogo e jornalista, professor de Jornalismo da ECA-USP e autor, entre
outros, de A TV sob controle – A
resposta da sociedade ao poder da televisão (Summus Editorial)

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