EMPREGOS CONTRA O CRIME
Marcos Rolim - jornalista
Richard
Branson é um mega-empresário britânico dono da Virgin Group. A marca
"Virgin" tornou-se conhecida mundialmente pela editora e pelas lojas
de discos e filmes, mas o grupo atua em muitos outros ramos, com centenas de
empresas espalhadas pelo mundo em áreas tão diversas como as telecomunicações,
as ferrovias e a aviação. Branson tem uma política de contratação de pessoal
que pareceria estranha à maioria dos empresários brasileiros: ele estimula que
suas empresas contratem egressos do sistema penitenciário. A decisão surgiu
após ele ter visitado uma prisão na Austrália, a convite da criadora do Comic
Relief Jane Tewson, conhecida por suas causas humanitárias e impopulares. Lá,
ele se encontrou com representantes da transportadora Toll que empregou, nos
últimos anos, 460 ex-prisioneiros, nenhum dos quais reincidiu. Para Branson,
a situação é óbvia: "- Na Austrália, conversei com um ex-preso que me
contou o que ocorreu no momento de seu livramento. Ele não tinha sequer o
dinheiro para a passagem de ônibus e saiu da prisão a pé. Tentou emprego, mas
não conseguiu, precisamente por ter cumprido pena. Então, logo reincidiu e foi
preso novamente. Este é um círculo vicioso que precisa ser superado".
A política
de Branson não significa preferência por egressos, porque a seleção segue sendo
por mérito. O que ocorre é que ex-condenados sabem que naquelas empresas não
haverá preconceito contra eles e, logicamente, as procuram. O jornal The
Guardian perguntou a Branson se ele empregaria jovens envolvidos nos recentes
motins de Londres. A resposta: -"É claro que sim, sem hesitação. Eu cometi
alguns erros e poderia facilmente ter passado um tempo na prisão por sonegar
impostos, por exemplo. Então, eu teria tido grande dificuldade em encontrar um
emprego, a Virgin não existiria e nem seus 60 mil empregos". E
acrescenta: "- nós já flagramos funcionários furtando discos e lhes demos
uma segunda chance. Um menino desviava discos para outras lojas. Foi lhe dada
uma segunda chance e ele se tornou um dos melhores funcionários que já
tivemos."
No mês
passado, em nota à imprensa, Branson e outros grandes empresários ingleses,
incluindo Marc Bolland da Marks & Spencer, convocaram mais empresas a dar
empregos a pessoas com registros criminais, dizendo: 'Nossa experiência mostra
que pessoas egressas da prisão, se adequadamente selecionadas, irão provar que
são tão confiáveis quanto quaisquer outras". O tema deveria interessar aos
gestores brasileiros da segurança pública.
Para além de qualquer consideração sobre os direitos das pessoas, lidamos aqui com a possibilidade de impactar fortemente - e em curto prazo - os indicadores de criminalidade. Uma política de prevenção terciária de amparo aos egressos, que estimule a profissionalização e a entrada no mercado de trabalho, aos moldes do que o Grupo Cultural AfroReggae tem feito no RJ, por exemplo, fará mais pela redução da violência e do crime que todos os esforços de repressão somados. E custará muito menos. Uma política do tipo exige apenas a coragem necessária para enfrentar o senso comum e não se dobrar aos preconceitos e à intolerância disseminada.

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