A velha mídia empresarial não se emenda, é um caso perdido. Vive e sobrevive
denunciando um complô internacional contra a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão,
quando na verdade ela mesma pratica reiteradamente atos de censura, violando do
deito à informação dos brasileiros. Confirma na matéria abaixo, do jornalista
Luciano Martins Costa.
Como
esconder a boa notícia
Por Luciano Martins Costa - edição 666 do Observatório de Imprensa
Os jornais
amanheceram na quarta-feira, 2 de novembro, dia dedicado a homenagear os
mortos, com o relato de um verdadeiro velório. O sistema econômico global range
sob o peso das crises sucessivas e o leitor é atirado de um lado para outro,
entre a esperança e o pessimismo, como o navegante sob tempestade.
Deste lado do
Atlântico, as águas ainda se agitam pouco, mas a imprensa destaca sinais de
desconforto. Quando o ex-presidente Lula da Silva declarou, há três anos, que a
crise financeira de 2008 chegaria ao Brasil “como uma marolinha”, os jornais
fizeram manchetes com o catastrofismo de seus opositores. Os fatos lhe deram
razão até aqui e o tsunami não chegou às nossas praias.
Mas, no mundo
globalizado e interdependente, impossível prever quanto os tremores nos países
desenvolvidos vão afetar as economias periféricas e emergentes.
Sonho e pesadelo
As edições de
quarta-feira (2/11) dos jornais brasileiros trazem alguns dados que mostram
certos efeitos negativos da crise européia sobre a economia brasileira. Mas é
preciso cuidado na leitura.
A Folha de
S.Paulo, por exemplo, inverte completamente os números para criar um viés
negativo no cenário que também tem boas notícias. Observe o leitor: o fato
central é que a balança comercial brasileira obteve em outubro um superávit de
US$ 2,35 bilhões, o maior desde 2007. Trata-se de um resultado 28,9% maior do
que o saldo obtido no mesmo período do ano passado. Além disso, foram os
maiores valores já alcançados para o mês de outubro desde que esse
acompanhamento começou a ser feito.
Pois bem: na Folha,
essa notícia auspiciosa se transforma num pesadelo: os editores do jornal
preferem destacar que, nesse quadro otimista, sempre há alguma coisa para
assustar o leitor. A Folha deixa escondida a informação do
crescimento das exportações brasileiras e abre o seguinte título: “Com crise,
vendas do Brasil para Europa perdem fôlego”.
Na verdade, os
dados divulgados pelo governo indicam que as vendas de produtos brasileiros
para Espanha, França e Itália cresceram em outubro menos do que a média dos
primeiros nove meses do ano. No entanto, comparadas ao mesmo mês do ano passado,
as exportações brasileiras para a Europa cresceram mais de 13%, apesar da
crise.
O pessimismo como
opção
Na vida real, as
exportações brasileiras em outubro deste ano bateram o recorde histórico
referente a esse mês. Com a substituição de alguns itens e o aumento das vendas
de café, petróleo e minério de ferro, o Brasil praticamente anulou o efeito da
crise em seu comércio com os países europeus.
Além disso, as
vendas para os Estados Unidos aumentaram mais de 39% em outubro deste ano,
índice superior à média de 31,8% registrada nos nove meses anteriores. Apesar
de a economia americana estar, como se diz, andando de lado.
E não foi apenas
isso: o saldo da balança comercial brasileira no total foi positivo, com o
maior superávit dos últimos quatro anos, e as importações também se mantiveram
em alta, ou seja, o mercado interno continua aquecido. No entanto, o viés da Folha é
absolutamente pessimista.
No Estado
de S.Paulo, os fatos parecem mais transparentes – “Superávit comercial bate
recorde em outubro”, diz o título da reportagem. Mas o texto está espremido
entre a principal matéria da página de Economia e um anúncio, sem qualquer
destaque, no meio de notícias sobre a crise na zona do euro e seus efeitos no
Brasil.
No Estadão,
além da abordagem correta, com o título refletindo o aspecto positivo da
notícia, acrescenta-se que, apesar da crise que também afeta a economia
americana, o Brasil reduziu o déficit com os Estados Unidos e as exportações
para aquele país vêm crescendo em ritmo importante.
No Globo,
a notícia do superávit da balança comercial está escondida em um parágrafo no
pé de uma reportagem sobre a desaceleração na indústria brasileira.
Alguém explica?
Claro que há
notícias ruins por todo lado. Afinal, o coração do sistema capitalista
apresenta sintomas de taquicardia desde setembro de 2008 e não há sinais de
remédio capaz de produzir alguma estabilidade.
A solução da
véspera, com o suposto acordo para a dívida da Grécia, se transformou em
pesadelo com a decisão do governo grego de submeter a proposta a um referendo.
Sendo a Grécia o berço da democracia ocidental, qual a surpresa?
Também era
esperado que, em algum momento deste ano, a indústria brasileira reduzisse o
ritmo. Os estoques para o Natal estão prontos, as compras de equipamentos foram
aceleradas até o primeiro semestre e os investidores estão na expectativa de
uma solução para o problema europeu.
Mas o que é mais
do que sabido vira manchete nos principais jornais do país simplesmente porque
é a pior notícia do dia.
Alguém aí pode
explicar qual é o propósito da imprensa ao tentar derrubar o ânimo dos
brasileiros?

1 comentários:
Sabe não? É assustar as "inteligentes e sabe tudo" Luanas da vida!
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