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Ao que tudo indica, esses dois senhores olham
e falam sem muita discrição...
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- Não posso nem
vê-lo. É um mentiroso!
- Se você está
cansado, imagina eu, que tenho de lidar com ele todos os dias!
Esse
diálogo revelador foi travado entre Nicolas Sarkozy, presidente da França, e Barack
Obama, presidente dos EUA, em 03NOV último.
Falavam
de seu “aliado” e “amigo” Benjamin Netanyahu.
A opinião de Sarkozy e Obama sobre Netanyahu não
surpreende. O que chama a atenção mesmo é que ela, enquanto notícia, foi
censurada. Melhor, autocensurada. Ou
seja, a própria mídia empresarial, que vive alardeando por aí sua tenaz luta em
favor da “liberdade de imprensa”, resolveu que não iria noticiar o diálogo. E o
direito à informação dos simples mortais?
Confiram a matéria do jornalista Luiz Cláudio Cunha, que pesquei no Sul 21:
A gafe
dos presidentes, a mentira da imprensa
Luiz Cláudio Cunha Especial para o Sul 21
O fato mais retumbante da fracassada reunião do G-20, dias 3 e 4/11, em
Cannes, não saiu em nenhum comunicado oficial, nem nas entrevistas dos líderes
das 20 nações mais ricas deste planeta empobrecido. Num descuido técnico capaz
de matar de inveja ao inconfidente Julian Assange, vazou no sistema de som da
cúpula um diálogo inacreditável dos presidentes da França, Nicolas Sarkozy, e
dos Estados Unidos, Barack Obama, desancando um amigo ausente, o premiê de
Israel, Benjamin Netanyahu.
Os jornalistas receberam seus equipamentos de tradução simultânea,
enquanto aguardavam a chegada de Sarkozy e Obama para a entrevista coletiva. Os
dois presidentes, com aquela sinceridade que só habita documento secreto vazado
pelo WikiLeaks, falavam em privado, na sala ao lado, o que nunca diriam em
público sobre o primeiro-ministro israelense.
“Não posso nem vê-lo. É um mentiroso”, bufou Sarkozy, em francês. “Se
você está cansado, imagina eu, que tenho de lidar com ele todos os dias”, ecoou
Obama, sob o solitário testemunho do intérprete. Um descuido jogou esta
conversa franca no sistema de som que os jornalistas haviam recebido, minutos
antes da coletiva iminente.
Mais espantoso do que o tom cabeludo do papo presidencial entre dois
tradicionais aliados de Israel foi o comportamento cúmplice da grande imprensa,
que se mostrou uma aliada ainda mais incondicional de Sarkozy e Obama. Esta
conversa aconteceu numa quinta-feira (3/11), numa sala reservada do suntuoso
Palais des Festivals de Cannes, e foi ouvida casualmente por seis jornalistas
de grandes órgãos internacionais, que ainda testavam seus fones de ouvido. Um
deles era da Associated Press (AP), uma gigantesca agência de notícias que
abastece 1.700 jornais e 5.000 rádios e TVs em 120 países. Outro era da
Reuters, a maior e mais antiga agência do mundo, com 14 mil funcionários
falando 20 idiomas em mais de 200 grandes cidades do mundo. Apesar disso,
ninguém ficou sabendo da conversa ouvida por acaso pelos jornalistas
simplesmente porque os jornalistas ocultaram a notícia.
Cortesões do poder
Uma das anônimas testemunhas dessa gafe histórica explicou à agência
estatal France Presse (3.000 funcionários em 110 países, com notícias em seis
idiomas) a razão de seu deliberado mutismo: “Nós fomos avisados para sermos
prudentes e proteger as pessoas do Palácio Eliseu, com as quais trabalhamos
todos os dias, e acima de tudo sobre a natureza da conversa, que poderia ser
explosiva”.
Outro jornalista, mais servidor público do que servidor do público, o
israelense Gidon Kutz, de uma rádio oficial de Tel-Aviv, explicou que os
repórteres acharam melhor esconder o que ouviram por “uma questão de correção”
e por uma inesperada cortesia com os anfitriões: “Eles não quiseram embaraçar o
serviço de imprensa do Governo Sarkozy”.
A rede britânica BBC acrescentou outra vergonhosa explicação dos
jornalistas que decidiram dissimular a notícia: “A divulgação do diálogo
poderia constranger Sarkozy”, disseram, ocultos no anonimato e encharcados de
constrangimento por seu mau profissionalismo.
Com esse inusitado pacto de silêncio, a conversa sem censura de Sarkozy
e Obama acabou sendo vítima de uma inusitada autocensura dos repórteres que
testemunharam a derrapada presidencial mas preferiram ser servis ao poder, em
vez de servir ao público a que deveriam informar. Tudo isso ficou sepultado num
obsequioso sigilo durante cinco dias. A conversa vazada da quinta-feira (3) só
ganhou as manchetes do mundo na terça-feira (8/11), por obra e graça de um site
francês especializado nos bastidores da mídia eletrônica, o Arrêt Sur Images(ASI), algo como “Imagem sob
Julgamento”. Os jornalões brasileiros só deram a notícia uma semana depois
(quinta, 10/11).
Carne com cenoura
Sustentado apenas pelos assinantes e sem espaço para publicidade, o ASI
fez o que o resto da imprensa não conseguiu fazer – reconheceu o conteúdo da
conversa vazada como de “utilidade pública” e fez dela um “furo” de repercussão
mundial, com esta manchete: “Netanyahu ‘mentiroso’ – a conversação secreta de
Obama e Sarkozy”. Até as grandes agências de notícias, que tinham afanado a
informação, foram obrigadas a reproduzir a gafe mundo afora para não ampliar o
vexame. Ela ganhou destaque até nos sites dos maiores jornais de Israel, com
exceção do diário Israel Hayom, conhecido por sua notória
intimidade com o premiê Netanyahu desde que foi lançado, em 2007.
O site Arrêt Sur Images é dirigido pelo jornalista Daniel Schneidermann,
53 anos, que escreve semanalmente sobre TV nos jornais Le Monde e Libération. O
sucesso de seus comentários o levou a criar em 1995 um programa no canal
estatal France 5 com um objetivo claro: “A vocação de Arrêt Sur Images é
a reflexão crítica sobre as mídias”. Os jornalistas de TV, incomodados
com essa espécie de “observatório televisivo”, apelidaram o programa semanal de
Schneidermann de boeuf-carottes (carne com cenoura), gíria
francesa para uma repartição pública, a IGS, conhecida como “a polícia das
polícias”. Tinha uma audiência média de 7%, o que representava mais de 700 mil telespectadores,
mas a fricção interna na rede estatal levou à sua exclusão da grade de
programação em setembro de 2007.
Dias depois de sair do ar na TV, o Arrêt Sur Images voltou pela
internet, com o mesmo nome e ousadia. Até o blog ganhar visibilidade mundial
com o “furo” inesperado de Cannes.
A questão que fica sem resposta não é o previsível mal-estar que
dominará os futuros encontros entre os líderes dos Estados Unidos, França e
Israel, agora desnudados pela conversa nua e crua de Sarkozy e Obama.
A grande, desafiadora pergunta que paira no ar sobrevoa a gafe
monumental da grande imprensa mundial surpreendida em flagrante delito: o que
levou à deliberada ocultação de uma notícia de evidente interesse público, de
forte implicação política, de grave repercussão internacional no contexto das
relações diplomáticas?
A ferida e o manto
É inacreditável que experientes profissionais de grandes órgãos e de
redes de comunicação de alcance planetário se vejam, de repente, enredados em
questões menores, mesquinhas, provincianas. Não cabe aos jornalistas, em
nenhuma circunstância, o delito de esconder deliberadamente uma notícia sob o
falso argumento de que ela possa “constranger” o poder ou a autoridade pública.
Nada constrange mais do que a autocensura ou o servilismo da imprensa às
instâncias do poder, público ou privado. A imprensa e seus profissionais vivem
e dependem da fé pública que deriva de sua eterna vigilância e de sua
permanente independência em relação aos governos e aos governantes, em todos os
tempos, em todos os lugares.
Os repórteres enviados a Cannes não estavam lá a passeio, para
aproveitar as delícias da Promenade de la Croisette, a charmosa avenida a
beira-mar lambida pelo sereno Mediterrâneo. Diante do inesperado vazamento, não
cabia a eles “proteger” os descuidados funcionários do Palácio Eliseu ou evitar
embaraços aos presidentes distraídos. Uma das virtudes dos bons jornalistas é
justamente embaraçar governantes e expor as falhas de suas administrações.
Esconder uma notícia não é “uma questão de correção”. É exatamente o
contrário. Quando se estabelece um sistema de cumplicidade e uma prática de
quadrilha para fazer o que não é correto e para cometer um ato servil que
subverte a função essencial do bom jornalismo, abre-se uma ferida de mau comportamento
que exige uma discussão aberta e transparente, sem códigos de silêncio ou
conluios de sigilo, todos envergonhados, todos vergonhosos.
É surpreendente descobrir que, oculto por trás da grande gafe
presidencial de Cannes, havia algo ainda maior, ainda pior: um grave vazamento
ético de má conduta da imprensa. A única forma de estancá-lo é abrir, já, um
amplo debate sobre este monumental erro coletivo, que abafa até o jornalista
mais inocente sob o espesso manto do constrangimento.
Luiz Cláudio Cunha é jornalista: cunha.luizclaudio@gmail.com

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