O escândalo do século
Por
Luciano Martins Costa
O
livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr, intitulado A
privataria tucana, publicado pela Geração Editorial na coleção
“História Agora”, está produzindo um estranho fenômeno na imprensa brasileira:
provoca um dos mais intensos debates nas redes sociais, mobilizando um número
espantoso de jornalistas, e não parece sensibilizar a chamada grande imprensa.
O autor promete, na capa,
entregar os documentos sobre o que chama de “o maior assalto ao patrimônio
público brasileiro”. Anuncia ainda relatar “a fantástica viagem das fortunas
tucanas até o paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas”. E promete revelar a
história “de como o PT sabotou o PT na campanha de Dilma Rousseff”.
Ex-repórter do Globo, originalmente
dedicado ao tema dos direitos humanos, Ribeiro Jr. ganhou notoriedade no ano
passado ao ser acusado de violar o sigilo da comunicação de personagens da
política ao investigar as fonte de um suposto esquema de espionagem que teria
como alvo o então governador mineiro Aécio Neves. Trabalhava, então, no jornal Estado
de Minas, que apoiava claramente as pretensões de Neves de vir a
disputar a candidatura do PSDB à Presidência da República em 2010.
Os bastidores dessa história
apontam para o ex-governador paulista José Serra como suposto mandante da
espionagem contra Aécio Neves, seu adversário até o último momento na disputa
interna para decidir quem enfrentaria Dilma Rousseff nas urnas.
“Outro ninho”
Informações que transitaram pelas redes sociais no domingo
(11/12) dão conta de que Serra tentou comprar todo o estoque de A
privataria tucana colocado
à venda na Livraria Cultura, em São Paulo, e que teria disparado telefonemas
para as redações das principais empresas de comunicação do país.
Intervindo em um grupo de
conversações formado basicamente por jornalistas, o editor Luiz Fernando
Emediato, sócio da Geração Editorial, afirmou que foram vendidos 15 mil exemplares
em apenas um dia, no lançamento ocorrido na sexta-feira (9). Outros 15 mil
exemplares estavam a caminho, impressos em plantão especial para serem
entregues às livrarias na segunda, dia 12, juntamente com o lançamento da
versão digital.
Aos seus amigos do PSDB,
Emediato recomendou cautela e a leitura cuidadosa da obra, afirmando que o
trabalho de Amaury Ribeiro Jr. não é “dossiê de aloprado, não é vingança, não é
denúncia vazia, não é sensacionalismo. É jornalismo”.
O editor indicou ainda aos leitores que procurassem informações
no blog do deputado Brizola Neto (PDT-RJ), no qual, segundo ele, estariam as
pistas de “outro ninho offshore na rua Bernardino de Campos, no bairro
do Paraíso, em São Paulo. A investigação agora chega na família do ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso. Vamos ver onde isso vai parar”, concluiu.
O Titanic da política
A julgar pelo volume e a
densidade das denúncias, pode-se afirmar que, sendo verdadeira a história
contada por Amaury Ribeiro Jr, trata-se do mais espetacular trabalho de
investigação jornalística produzido no Brasil nas últimas décadas. Foram doze
anos de apuração e depurações. A se confirmar a autenticidade dos documentos
apresentados, pode-se apostar nessa como a obra de uma vida. A hipótese de
completa insanidade do autor e do editor seria a única possibilidade de se
tratar de uma falsificação.
Confirmado seu conteúdo, o
livro representa o epitáfio na carreira política do ex-governador José Serra e
um desafio para o futuro de seus aliados até agora incondicionais na chamada
grande imprensa.
O editor garante que são 334
páginas de teor explosivo, escancarando o que teria sido a articulação de uma
quadrilha altamente especializada em torno do processo das privatizações
levadas a efeito durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso. Os
documentos envolvem o banqueiro Daniel Dantas, a família de José Serra e alguns
personagens de sua confiança.
Não apenas pelo que contém,
mas também pelos movimentos iniciais que lhe deram origem, o livro representa
uma fratura sem remédio na cúpula do PSDB e deve causar mudanças profundas no
jogo político-partidário.
“Privataria”, a expressão
tomada emprestada do termo que o colunista Elio Gaspari costuma aplicar para os
chamados malfeitos nas operações de venda do patrimônio público, ganha agora um
sentido muito mais claro – e chocante.
Os sites dos principais jornais do país praticamente ignoraram o
assunto. Mas portais importantes como o Terra Magazine entrevistaram o autor. O
tema é capa da revista Carta Capital, e não há
como os jornais considerados de circulação nacional deixarem a história na
gaveta. Mesmo que seus editores demonstrem eventuais falhas na apuração de
Amaury Ribeiro Jr., o fenômeno da mobilização nas redes sociais exige um
posicionamento das principais redações.
Se a carreira de Serra parece
ter se chocado contra o iceberg do jornalismo investigativo, a imprensa precisa
correr imediatamente para um bote salva-vidas. Ou vai afundar junto com ele.
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